Mary Light

words, words, words. W.S.

Wednesday, November 09, 2005

 

Furtivo

Saindo do mato molhado
feito gato que se escondeu
depois de ser escaldado

subindo a ladeira correndo
procurando abrigo
onde não possa ser encontrado

escondendo as marcas dos erros
do passado
rodando essa bola de terra e água
entre as pernas, cambaleantes

escrevendo com semente de papoulas
nomes de mulheres amargas
que se passaram e voaram com o vento
assim como as mesmas papoulas
antes de serem jogadas ao relento

deitado no asfalto
cheio de cicatrizes
com o rosto queimado de lágrimas
o céu cinza escurecendo
o cenário perfeito das lástimas

Sopra-se o vento
levam-se as roupas, cabelos, e papéis
mastigados pela metade

Onde não havia comida
comiam-se embalagens
que demoravam anos para serem reaproveitadas pela natureza

e se embalavam sonhos de realidades distantes
que de tão longe se tornavam dissonantes
com o barulho do despertador que se fazia com buzina de caminhão e cheiro de piche.

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