Terra do Fogo
E Deus os fez assim. Ela sempre feliz internamente, escondida na tristeza habitual. Sorridente a qualquer transeunte que cruzasse seu caminho. Difícil. Fácil. Meiga e sempre bem acompanhada. Ocupada com suas leituras e seu manual de vida.
Ele, sempre vestido de preto, com olhos castanhos e ocupado com suas pinturas. Ouvindo loucas cançoes, feitas nem sei por quem. Um gênio qualquer.
Os dois no globo. Cada um do seu lado da esteira e da rua. A mesma rua. Sempre a se cruzarem, como as formigas, isso aí, as formiguinhas. E comprando seus cigarros no mesmo botequim. Será mesmo, o mesmo botequim? Ou um botequim seria em Londres e o outro aqui mesmo, em Copacabana. (Será que Londres tem botequim?) Mas é por ai, sempre se cruzando, sem como nem porquê, como as formigas. Até que um dia, um deles, ele, tem a força e a chama pra perto. A convida para tomar uns tragos, naquele mesmo e velho botequim. Ela aceita, mesmo sem beber, porque odeia bebida, mas sabe que ele vale a pena. Então vai lá. Eles se sentam, e pedem por pinga. Ele toma o trago, e relaxa. Ela nunca provou cachaça na vida, mas vai e vira, e se sente pegando fogo. Como já estava se sentindo antes, pela situaçao toda, e finge que nao está acontecendo nada. Os dois. Então, ficam nesse trago apenas, pagam a conta e conversam sobre a ida a um outro lugar. Se levantam e deixam o bar. Nunca mais foram vistos. E se vêem, todos os dias. Se vêem mesmo. Com as mãos, a língua, e os olhos.